O Carnaval antes do Carnaval
Com a aproximação eminente
do Carnaval, dei por mim a pensar: alguma vez se perguntaram de onde é que ele
vem? Porque é que o celebramos? O porquê do nome?
Não se deixem enganar, o
Carnaval não é uma tradição moderna, pelo contrário, é mais antiga do que o
próprio ano em que vivemos. Apenas foi-se adaptando à evolução dos tempos.
Muito antes do cristianismo,
já existiam festas ligadas ao fim do inverno, à fertilidade da terra, ao
excesso antes da escassez, à inversão de papéis sociais.
Quando o Cristianismo
chegou, não conseguiu acabar com estas festas. Portanto, fez a única coisa que
podia fazer: absorveu-as. Colocou-as imediatamente antes da Quaresma e
transformou-as na “última festa” antes do jejum.
Daí vem a ideia do excesso
antes da abstinência.
Até o próprio nome da festa
foi alterado quando o Cristianismo entrou no mapa. Pensa-se que o nome Carnaval
é uma alteração moderna do latim carne vale, que significa “adeus à
carne/despedida do pecado”.
Mas nem sempre se chamou
assim…
No Império Greco-Romano,
celebravam-se as Saturnálias – em honra de Saturno – e os Bacanais – em honra
de Baco ou Dionisio, dependendo se estivessem em Roma ou na Grécia.
As Saturnálias talvez não
sejam tão desconhecidas assim, há inclusive textos de versões polidas desta
festa, que a meu ver não lhe fazem a justiça devida, e é uma pena.
As Saturnálias são uma das
raízes mais importantes do que hoje chamamos Carnaval. E são fascinantes porque
eram, literalmente, o mundo virado do avesso por alguns dias.
Eram festas romanas em honra
de Saturno, deus da agricultura, do tempo e da abundância.
Celebravam-se em dezembro –
de 17 a 23 de dezembro, segundo se pensa – e marcavam o fim dos trabalhos
agrícolas, o período mais escuro do ano (inverno) e a esperança de renovação
futura.
Tinham origem num mito: no
tempo de Saturno, os humanos viviam numa Idade do Ouro, sem fome, sem
desigualdade, sem escravidão. As Saturnálias tentavam recriar simbolicamente
esse tempo perfeito – nem que fosse por uma semana.
Era uma festa onde se
invertiam papéis e posições sociais: o pobre podia ser rico, o escravo podia
ser senhor. Os castigos e punições eram suspensos, os mais pobres podiam
criticar e dizer mal dos patrões e figuras de autoridade sem qualquer
repercussão, havia bebida, música, jogos e crítica social.
Já os Bacanais, ou
Bacchanalia como se chamava na altura, iam mais para o exagero, roçando quase a
noção moderna de orgias, dignas de qualquer filme clássico dos anos 1930.
São a parte mais intensa das
raízes pagãs do Carnaval. E também a mais mal compreendida. Se as Saturnálias
eram o mundo ao contrário, os Bacanais eram o mundo sem travões. Eram festas
dedicadas a Baco, deus do vinho, do êxtase, da loucura sagrada, do teatro, da
fertilidade e da quebra de limites. Não eram só festas – eram rituais
religiosos. Acreditava-se que, através da dança, do vinho e do transe, as
pessoas aproximavam-se do divino, libertavam a alma e quebravam a identidade
normal.
Roma e Grécia podiam ser o
centro da festa, mas o resto da Europa não demorou a acompanhar o ritmo. No
entanto, a diferença nas festividades era notória. Eram zonas mais rurais, mais
ligadas à agricultura, que era aliás o seu meio de sustento e sobrevivência,
além de serem os únicos grandes abastecedores de matérias-primas, como os
cereais, às grandes civilizações como Roma e Grécia.
Como tal, adaptaram as
festividades ao que lhes fazia sentido: a abundância da terra, o regresso da
luz e a preparação para a primavera. Acreditavam que a terra adormecia durante
o inverno, e tinha de ser despertada e estimulada para dar frutos. Acreditavam
também que esta dormência era causada por espíritos malignos que traziam o frio
e a escuridão.
Para combater isto, faziam
festas barulhentas e exageradas para afugentar os espíritos malignos que lhes
adormeciam os campos, ao mesmo tempo que despertavam e estimulavam a terra.
Durante as festas dos pagãos
europeus, surgiam figuras com máscaras de madeira, chifres, cobertos com peles
de animais e sinos. As máscaras representavam caras de demónios ou de animais
(provavelmente animais de grande porte, mas isto é só uma teoria minha).
Não eram, no entanto, os
demónios falados pelo cristianismo.
As máscaras representavam os
espíritos do inverno e as forças da natureza. O verdadeiro caos em pessoa.
Porque a natureza é isso: é caos, é rebeldia, é barulho, é música, é mudanças
constantes de cor e cenário.
Para além disso, muitos
rituais centravam-se na dualidade fertilidade = sexualidade. O objetivo não era
tornar a festa obscena ou vulgar. Longe disso.
O facto é que os pagãos
acreditavam (e acreditam) no poder da energia sexual. Acreditam que é capaz de
trazer vida e energia ao corpo, e essa vitalidade pode ser transferida de volta
à terra, onde pertence.
Manifestavam essa crença
através de danças e jogos eróticos, casamentos simulados e símbolos fálicos.
Ainda hoje, estas
celebrações continuam. Temos um exemplo bastante perto de casa, com os Caretos
de Trás-os-Montes. Já não é, com certeza, com o objetivo de afastar espíritos malignos
nem demónios invernais, nem tampouco para despertar a terra de modo a não haver
fome, mas continuam a usar as máscaras de demónio, os fatos coloridos e
exagerados, correm pelas ruas, fazem barulho, assustam quem passa, pregam
partidas e no fim, queimam um enorme boneco de madeira ou palha, alusivo a uma
figura política ou uma qualquer situação que não lhes agrade.
Acho que é seguro dizer que
os Caretos de Trás-os-Montes são o mais próximo que ainda temos das tradições
originais, embora hoje em dia seja apenas isso: uma festa e uma tradição que
foi sendo passada e mantida, não um ritual pela sobrevivência de uma
comunidade.
E, se me permitem que dê a minha humilde opinião, acho que é quase poético que os antigos pagãos se mascarassem de demónios, ou o que eles imaginavam que fossem os demónios invernais, para os afastar. É quase como se dissessem “eu vejo-te, demónio. Eu reconheço-te. Vejo a tua cara e a tua forma, e sei que estás aí. E não me metes medo.” Numa altura em que o inverno significava miséria e fome severa, é uma maneira belíssima, quase corajosa, de o encarar.

Comentários
Enviar um comentário