O Regresso do que Nunca Morreu

Antes de continuar com o que vos trago hoje, peço que tentem manter a mente aberta enquanto leem. Este texto não é um ataque, nem uma tentativa de conversão ao paganismo. Sei que é um assunto que assusta muita gente e deixa muita gente de pé atrás, e é precisamente por isso que estou aqui a escrever-vos hoje: para desmistificar, para explicar o que é e porque é que está novamente a surgir.

Se vos fizer sentido, muito bem. Se não fizer, está tudo bem na mesma.

Paganismo antigo: o que era e como funcionava?

Por definição, um pagão é todo aquele que segue uma fé, caminho espiritual ou religião não institucionalizada. Por exemplo, cristianismo, budismo, islamismo e as suas variantes são religiões institucionalizadas; o paganismo está fora desse enquadramento.

Os antigos pagãos eram pagãos porque, bem… não havia muito por onde escolher. Melhor dizendo, não havia escolha. As pessoas nasciam dentro dessas crenças e seguiam-nas porque essa era a ordem natural das coisas. É provável, aliás, que nem se reconhecessem como “pagãos” — era apenas a forma como o mundo funcionava.

Era uma religião profundamente ligada à agricultura, à sobrevivência da comunidade e à mudança das estações. Os próprios deuses estavam diretamente associados à natureza e manifestavam-se através dela: um bom ano agrícola, com sol e chuva na medida certa, tempo estável, poucas ou nenhumas pragas, prosperidade e abundância, significava que os deuses estavam satisfeitos. As oferendas tinham sido aceites e esse agrado refletia-se na vida da comunidade.

No entanto, havia também o outro lado da moeda. Quando surgiam secas, cheias, pragas ou más colheitas, isso só podia significar uma coisa: algo tinha enraivecido os deuses, o equilíbrio natural tinha sido quebrado e a justiça não fora reposta. Assim, os deuses vinham cobrar o que lhes era devido.

Para os antigos pagãos, a ira divina era uma realidade concreta e, como tal, era respeitada e temida. Isso levava as tribos a fazer tudo ao seu alcance para manter os deuses satisfeitos ou para os apaziguar quando acreditavam tê-los ofendido.

Estudar a vida quotidiana das tribos pagãs é igualmente fascinante, pois eram — a meu ver — verdadeiras comunidades. Cada um tinha o seu papel, mas todos trabalhavam com um objetivo comum. Se havia uma festividade para preparar, todos trabalhavam. Se era tempo de sementeira, todos semeavam. Se chegava a altura da colheita, todos colhiam.

Era do interesse de todos participar no que quer que estivesse a acontecer, pois isso garantia não só a sobrevivência da comunidade, como também a satisfação dos deuses.

A desobediência e a preguiça não eram bem recebidas. Para além de causarem conflitos internos e de colocarem em risco a subsistência do grupo, criavam um desequilíbrio que podia enfurecer os deuses — e todos sabiam o que isso significava.

Para além dos deuses, era igualmente importante estar nas boas graças dos anciãos. Embora não detivessem poder absoluto, a sua opinião tinha um peso considerável na tomada de decisões, fossem elas quais fossem.

Numa tribo pagã, os anciãos ocupavam um lugar de relevo, pois eram os mais velhos e, por isso, os mais sábios. Já tinham vivido e sobrevivido a muita coisa e, em momentos de dúvida ou indecisão, os próprios chefes e líderes — políticos ou militares — recorriam a eles em busca de orientação.

Era também através dos anciãos que o conhecimento era transmitido às gerações mais novas. Num contexto maioritariamente rural, onde a alfabetização não era uma realidade, a sabedoria passava de boca em boca, através de histórias, cânticos e ensinamentos práticos.

Posto isto, torna-se claro que, ao contrário da atualidade, o paganismo não era uma escolha. Era uma religião herdada, passada de pais para filhos e integrada na vida quotidiana com naturalidade, pois era a única realidade que existia — ou, melhor dizendo, a única realidade que se conhecia.

Isto manteve-se assim até ao surgimento do cristianismo, nascido fora da Europa, adotado pelo poder político romano e introduzido de forma progressiva nos reinos europeus, onde acabou por se tornar religião oficial.

Mas a história não termina aqui. Após séculos de silêncio, quando se julgava extinto, o paganismo ressurge das cinzas, qual fénix alada — adaptado aos tempos modernos e sob um novo nome: neopaganismo.

Neopaganismo: o que é e como surgiu?

O neopaganismo surge no século XX, num mundo já profundamente afastado da terra, dos ciclos naturais e da sabedoria ancestral. Entre cidades de betão, horários artificiais e uma espiritualidade cada vez mais institucionalizada, muitas pessoas começaram a sentir um vazio difícil de nomear.

Esse vazio não era ausência de fé, mas antes a procura de uma ligação diferente: à natureza, aos antepassados e a uma espiritualidade sem intermediários. É nesse contexto que o neopaganismo nasce — não como herança, mas como escolha consciente, feita por quem decide trilhar um caminho espiritual fora das estruturas tradicionais.

Como tal, as tradições, rituais e festividades não são perpetuados por transmissão direta dos nossos pais ou avós. Não são celebrados porque “sempre foi assim”, mas porque foram resgatados das sombras, reconstruídos a partir de fragmentos e adaptados aos tempos modernos.

Existe hoje uma pesquisa ativa entre diferentes mitologias, textos arqueológicos e saberes antigos — como a medicina natural — numa tentativa consciente de recuperar aquilo que foi apagado ou silenciado ao longo da história.

Embora os rituais já não tenham como objetivo garantir a sobrevivência física da comunidade — comida, abrigo ou proteção — creio que continuam a falar de sobrevivência. Não do corpo, mas do espírito.

Quem procura o paganismo nos dias de hoje procura sentido. Procura cura. Procura aprender a olhar para feridas internas e traumas antigos não como algo a eliminar, mas como partes integrantes de si — capazes de serem transformadas em força, identidade e caminho espiritual.

Este regresso à espiritualidade natural traz consigo algo que esteve ausente durante séculos do pensamento religioso dominante: o reconhecimento do feminino como força sagrada.

No paganismo antigo, o feminino não era entendido como inferior ou passivo. Estava ligado aos ciclos da natureza, à fertilidade da terra, à vida e à morte, à cura e à transformação. As mulheres ocupavam lugares centrais na transmissão de conhecimento, nos rituais e na ligação entre a comunidade e o divino.

Com a institucionalização das religiões monoteístas, esse equilíbrio perdeu-se. O sagrado afastou-se do corpo, da terra e dos ciclos naturais, tornando-se cada vez mais distante da experiência humana.

No neopaganismo, o feminino regressa não como nostalgia, mas como necessidade. Num mundo marcado pelo excesso, pela desconexão e pela rutura com a natureza, o reconhecimento do feminino surge como um caminho de cura, integração e reconciliação — não apenas para as mulheres, mas para todos.

O que se conclui daqui?

O paganismo é um caminho como qualquer outro. Não é melhor nem pior, é apenas outro caminho entre tantos que existem e surgem todos os dias.

É cura, é paz interior, é a fé em algo maior que nós mesmos, como qualquer religião.

Para alguns, é espiritualidade. Para outros, é feminismo.

Para uns quantos, como é o meu caso, é a âncora que nos obriga a parar e a olhar em redor, num mundo errático que se tornou demasiado avassalador na sua correria quotidiana.

A beleza desta espiritualidade está aí: não há dois trilhos iguais. Não há uma única maneira correta. É moldável, é vivo, sem leis rígidas ou mandamentos.

Mas friso: só porque faz sentido para mim e para outros tantos por esse mundo fora, não tem de fazer sentido para todos. É a parte boa de haver várias fés e religiões: não se trata de escolher certo ou errado, mas escolher o que faz sentido.

Mesmo que não acreditem, que ao menos conheçam. Às vezes, compreender já é um gesto de respeito.

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