Um triângulo amoroso... e uma multidão
Ora, boa tarde, caros e fieis leitores. Hoje venho com esperança que me consigam esclarecer num assunto.
Estou eu muito bem no café-bar onde trabalho, com a televisão ligada nas notícias (que ninguém vê, mas toda a gente pede) e eis que aparece uma notícia, no meio de toda a enxurrada de desgraças a acontecer por esse mundo fora, que me deixou, no mínimo, confusa.
Ao que parece, um concorrente de um reality show tinha uma namorada cá fora, e envolveu-se com outra concorrente do mesmo reality show. Tanto quanto percebi, os factos são estes (corrijam-me se estou errada).
Deixem-me frisar uma coisa: eu entendo que uma traição, principalmente quando é captada em HD para toda a gente ver, gere revolta.
Eu entendo que pessoas que tenham passado por experiências semelhantes tenham tendência a criar um laço de empatia com quem é traído, mesmo que não conheçam pessoalmente a pessoa.
Até aqui, tudo certo.
Mas devo confessar que perdi a parte em que toda a situação diz respeito a alguém fora do triângulo.
Porque, aparentemente, agora a vida privada das pessoas não só diz respeito à população geral como exige intervenção alheia e flagelação em plena praça pública.
Existe quem ataque, quem defenda, quem tenta analisar imparcialmente a situação — embora de imparcial tenha pouco ou nada — e quem, como eu, se abstenha sequer de consumir tal conteúdo.
Formam-se equipas como se isto fosse um jogo de futebol ou um debate político.
E é aqui que eu pergunto: qual foi o ponto de viragem — que me escapou por completo — em que um entretenimento de segunda categoria, que podia gerar discussões ou debates até interessantes entre amigos numa esplanada na companhia de uma cerveja, se tornou uma desculpa válida para vandalismo, violência gratuita, ameaças e mensagens de ódio?
Já alguém parou, sequer, para pensar que isto pode estar tudo combinado?
Não se esqueçam de que estamos a falar de um reality show.
E no fim do dia, é mesmo isso: um show. Um espetáculo. Um teatro.
Ou como eu gosto de chamar — a realidade com guião pré-definido.
Tendo isto dito, permitam-me concluir com uma reflexão pessoal — um apelo, se assim quiserem chamar.
Mesmo que seja real. Mesmo que alguém tenha realmente sido traído e esteja, de facto, a sofrer com a situação. Gravem estas palavras:
Não. Vos. Diz. Respeito.
Pensem ao contrário: se fossem vocês nesta situação, sentir-se-iam confortáveis em ver a vossa dor escarrapachada em canais de jornalismo cor-de-rosa e sensacionalista, exposta sem pudor para análise do escrutínio público?
Então, aí têm a vossa resposta.
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