Os Deuses da Terra e o Deus do Céu


 

No texto anterior, explorámos as diferenças e semelhanças entre o paganismo antigo e o neopaganismo, assim como as razões que explicam o regresso deste último.
Desta vez, o convite é outro: uma viagem entre dois mundos que olham o sagrado de formas opostas – e perceber porque é que, ao cruzarem-se, acabaram por chocar.

O conflito não começou de espada em riste. Começou muito antes disso.

Nasceu do encontro entre duas formas profundamente diferentes de compreender o que é sagrado e o que é mundano.

Para o paganismo, a própria natureza é sagrada. Como tal, não é algo a dominar indiscriminadamente. E quando o é, acredita-se que tal desequilíbrio traz consequências.

Isto significa que o divino é imanente — está no mundo e manifesta-se através das mudanças que vemos à nossa volta: as estações do ano, os ciclos naturais, o corpo, a matéria.

Na fé pagã, não existe uma verdade única e absoluta. Tal como existem vários deuses e diferentes práticas, também a verdade é plural e diversa.

Não há “a” verdade universal imposta de fora — há a experiência individual do sagrado. E isso não a torna menos válida.

Para os cristãos, a história é outra.

O divino e o sagrado são transcendentes — existem acima e para além do mundo material. O Deus que seguem é único, universal e exterior à criação, ao contrário das divindades pagãs, frequentemente associadas aos próprios elementos naturais.

Dentro desta visão, o mundo terreno é visto como imperfeito e transitório. A natureza deixa de ser sagrada em si mesma e passa a ser criação divina — algo que o ser humano pode administrar, transformar ou dominar.

É também aqui que nasce uma das maiores diferenças filosóficas entre ambas as visões: enquanto o paganismo tende a ver o ser humano como parte da natureza, o cristianismo coloca-o frequentemente acima dela.

Surge então uma tensão teológica interessante: se Deus é perfeito e criou o mundo, como explicar a imperfeição da própria criação? Para o cristianismo, a resposta encontra-se na queda do Homem e na corrupção do mundo através do pecado.

Como podem imaginar, estas diferenças não se limitaram a ficar no papel; se compararmos aos dias de hoje, qualquer diferença religiosa é motivo para haver guerra, mas isso é conversa para outro dia.

Estas diferenças tiveram consequências reais quando o cristianismo se começou a expandir. Não se notaram ao início, nem tampouco aconteceram da noite para o dia, mas existiram.

Quando começaram a espalhar-se pela Europa, ao contrário do que pensavam, os primeiros cristãos não encontraram “povos sem religião”, mas sim sistemas espirituais completos e complexos, introduzidos na vida quotidiana há dezenas, quiçá, centenas de gerações.

No início, havia quase como que uma coexistência relativamente pacífica. Houve mistura de crenças e conversões lentas, quase gentis. E muitos que se convertiam, inclusive, mantinham as suas práticas “originais” em privado, praticando os dois sistemas. Em suma, havia aqui algum equilíbrio.

Os problemas começaram realmente quando o cristianismo começou a ganhar poder político, porque não se ficou por aí. Começou a ditar o que era aceitável. Religiões ou sistemas espirituais antigos, que antes eram considerados diferentes, agora eram considerados errados, pecaminosos, atos de heresia.

O poder político uniu-se à religião, e isso raramente resulta numa combinação agradável.

Os templos pagãos foram destruídos ou convertidos em igrejas. Qualquer prática ou ritual considerado pagão, ou seja, que estava fora do que era considerado “aceitável” foi proibido e quem insistisse em praticar em segredo foi perseguido. Com o tempo, um clima de medo e desconfiança começou a instalar-se, acabando com o desaparecimento das tradições orais.

No entanto, nem tudo desapareceu. Foi absorvido. Transformado. Reestruturado, se assim preferirem.

Datas festivas como o Natal, o Carnaval e a Páscoa incorporaram elementos pagãos.

O “Natal” era celebrado a dia 21 de dezembro, solstício de inverno. Celebrava-se a esperança do retorno do sol, o fim da época de abundância e a preparação para a escassez natural do inverno. Meio que a desejar “boa noite e bom descanso” à terra.

O “Carnaval”, tal como já explorámos, era a expulsão dos espíritos do inverno. Mascaravam-se de demónios, e faziam barulho pelas ruas, para despertar a terra.

A “Páscoa”, ao invés da ressurreição de Cristo, celebrava-se o regresso da primavera, o despertar da terra, e com eles, a abundância. E se me permitem um pequeno momento de trívia: há uma razão para o símbolo da Páscoa ser um ovo – simboliza o renascimento, o começo de novas vidas e o despertar do que ficou adormecido.

O culto aos mortos – o ato de deixar velas, flores e até oferendas nas campas, veio das tradições pagãs.

Símbolos e rituais como a coroa de azevinho pendurada na porta, a árvore de Natal, o espanta-espíritos, soprar as velas de um bolo de aniversário, ter uma vassoura atrás da porta, pendurar o ramo da espiga atrás da porta... Tudo isso veio de tradições pagãs.

Posto isto e antes de terminar, aproveito para deixar uma reflexão pessoal como adepta do paganismo, um apelo, se quiserem: não somos assim tão diferentes. Nunca fomos. Tu que és cristão, tu que és islâmico, eu que sou pagã, se olharmos com atenção, não percorremos caminhos diferentes. Percorremos o mesmíssimo caminho de formas diferentes. É uma distinção ténue, mas existe. E, pensando bem, podemos perfeitamente coexistir, talvez até aprendermos uns com os outros, se conseguirmos recuar 2000 anos e aceitar a diferença pelo que ela é: uma constante da vida.

Dito isto, concluo: Lavoisier tinha razão: nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Foi apenas isso que aconteceu, uma transformação, ou melhor dizendo, uma adaptação do que já existia para o que passou a existir. Mas no fundo, continuámos todos cá, até aos dias de hoje. E eu acho isso lindíssimo…

 

 

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