Trabalhar Numa Fábrica

Sabem o que é estranho? As pessoas virem trabalhar para uma fábrica por acharem que se ganha bem. E, em parte, é verdade: se se fizer várias horas extraordinárias, que na parte que me toca, já tive a minha quota de trabalhar mais que 8 horas por dia, então sim, consegue-se tirar 900€ ou até 1000€ por mês (isto se a empresa for pontual e honesta nos pagamentos, o que nem sempre acontece).
Todavia, sai-nos bem do corpo, deixamos de ter vida pessoal, andamos tipo zombies sem ter forças para mais nada, para no fim nos darem o mesmo valor, que é nenhum.
Para não falar que trabalhar numa fábrica é um completo inferno, principalmente para alguém prefecionista, como é o meu caso. Numa fábrica, interessa apenas que esteja feito, como está feito não importa. E isso corrói-me por dentro!
Mas o trabalho não é o pior. Sim, é repetitivo, não tem nem metade da adrenalina ou desafio de - por exemplo - servir a um balcão ou à mesa, em que cada pessoa pede uma coisa diferente e têm todas que ser atendidas segundo a ordem em que os pedidos foram feitos e não se pode deixar ninguém à espera demasiado tempo, nem se deve cometer erros, para manter a imagem do estabelecimento. Numa fábrica não há isso, mas não é, de longe, o pior. Não, o pior são as pessoas que trabalham connosco! 
Já trabalhei em vários sitios, em ambientes distintos, com pessoas diferentes, e nunca me deparei com tamanha falsidade e mesquinhice como tenho visto nestes meses como trabalhadora fabril. Eu chego a sair do trabalho completamente esgotada a nivel mental, não por ter 8 horas de trabalho no lombo, o que também esgota, mas por levar com gente de mente pequena (salvo raras e abençoadas exceções) durante 8 horas seguidas, sem ter para onde fugir! Essa é a pior parte!
Agora perguntam vocês: "se gostas tanto de servir ao balcão e à mesa, porque é que não sais daí, se não te faz feliz?". Pois é, meus senhores, é uma pergunta bastante pertinente que tem uma resposta perfeitamente lógica: pandemia. É verdade, a resposta a essa pergunta pode resumir-se a essa palavra. 
Aliás, para aqueles de vós que trabalham em turismo, seja qual for a área (hospedeira/comissário de bordo, empregado de balcão/mesa, concierge, bartender, rececionista, empregada de andares, etc...) de certeza que sentiram uma queda brutal a nivel de carga de trabalho - isto, claro, se por milagre conseguiram manter o emprego.
Só agora, com a chegada da alegada endemia (ainda estou para ver onde é que isso vai dar) é que o setor do turismo começou a levantar outra vez.
Outro problema é que querem pessoas para entrada imediata, e visto que eu não tenho disponibilidade imediata, de momento, é um bocadinho dificil conseguir emprego na minha área. Já enviei curriculos, e quem me entrevistou adorou o que viu e ouviu, e disseram-me na cara "o problema é que precisava de alguém para entrar no dia X", que para mim é impossivel, porque tenho que dar 30 dias à casa.
De qualquer maneira, isto é apenas temporário, foi um último recurso porque a coisa estava a ficar negra a nivel de dinheiro. E como diz o ditado: quem precisa dele, sujeita-se.
O que é que eu quero dizer com isto tudo? Eu sei o que é estar desesperado por dinheiro, e não ver mais nenhuma solução, mas se decidirem enveredarem pela área fabril, mesmo que seja temporariamente, como eu, só até juntarem o suficiente para sobreviverem até encontrarem outra coisa, façam primeiro a vossa check-list mental: têm uma boa carapaça mental para aguentar certas cenas? Têm resistência fisica para aguentarem 8 horas de pé na mesma posição a fazer a mesma coisa? Têm alcance vocal para se fazerem ouvir por cima do barulho contínuo de máquinas, passadeiras, caixas, paletes e afins? Conseguem trabalhar sob pressão, com a deadline a aproximar-se e as máquinas a avariarem a cada 10 segundos? Conseguem lidar com chefias stressadas e mal educadas, que só vêem os números à frente deles e esquecem-se demasiado depressa que estão a trabalhar com pessoas, e não com robôs ou animais de gado? Não me levem a mal, mas até um animal de gado consegue ser mais bem tratado que um operário fabril!
Se conseguirem enfrentar isto e manter alguma sanidade mental durante 1 ano, que é quanto dura o contrato temporário, depois se forem bons o suficiente são convidados a passar para a casa, então olhem, é um trabalho, paga as contas, é bem pago, têm a refeição de borla, se a produção for excecional em termos de números, a empresa decide "mimar" os empregados oferecendo o café durante um dia... é experimentarem, quem sabe se não acabam por gostar. Não sei como é que alguém gosta de trabalhar num ambiente assim, mas ainda bem que há quem goste, ou tolere, caso contrário não teríamos metade das coisas que temos, que nos facilitam tanto a vida, desde carne embalada até produtos de limpeza, roupa e sabe deus que mais.
Têm a minha perspetiva, e quanto a mim, em Outubro saio deste inferno e sigo em frente. Já no que toca a vocês, a decisão é vossa.
Abraço. E bem haja!


Comentários

Mensagens populares deste blogue

A rapariga no comboio – Critica e Review

Paradoxo da Experiência

Ser Tradutora